quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Molotov

Estou no meio do nada
Diapasonicamente 
sinto tua frequência 
e ela é diferente da minha
você do meu lado
falo e permaneço calado.

...

Estou no meio da guerra
Mortifico-me
atiro em meu próprio peito
uma saraivada de festim 
você me esperando em casa
e eu fingindo estar morto.

...

Estou no meio do caos
Liquefaço-me
suor, água e chorume
três partes de mim
meu sangue fétido
escorre no meio do lixo.

...

Estou no meio do cais
Esquizofrenicamente
ouço o som das carabinas
empunhadas por fantasmas
vejo as asas do corvo
devo estar louco!

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Sobre o tempo

(Ao seu lado)

Agora eu só queria
o tempo parar

Relógio, eu te mataria
porque sempre
toda vida
que estou a levitar
tu insiste, propositalmente
em fazer o tempo dobrar
segundo vira hora
um minuto e vou embora.

...

Aguarde, caro relógio
sei que seu passado
ainda vai te condenar.
Cada minuto
que tu me roubou
irei recompensar...

Com carinho,
compreensão...
A seu tempo
amor e gratidão.

.........................

(Longe)

E morrendo um pouco mais
os fatos vão se concretizando
poros liberando os últimos fluidos
chega o tempo da transformação.

Sou metamorfo
me escondo em pele humana
esfinjo-me e te pergunto o enigma
você erra de propósito
e eu te devoro!

...

Minhas presas batem uma na outra
subitamente você desaparece
como a lua que me modifica
ao amanhecer você some...

Fico com o gosto
do meu próprio sangue
pensei estar me saciando
deliciando-me com o tempo
mas era apenas
a minha própria língua.

sábado, 3 de outubro de 2015

Sobre o desejo

Querer
Tocar e sentir
Como o perfume outra vez
Que exalo por ti

Querer
Acariciar e adorar
São os beijos molhados
Que entrego a ti

Mais uma vez quero
Por inteiro, sem medo
Desejo e venero
Minha Vênus, meu reino.

Volto no tempo
Me reintegro
Me reconstruo
Levanto impérios dentro de mim
Mas a vontade custa a ter fim.

...

Continuo cobiçando
Insisti porque espero
Que o momento retorne
Que a respiração transborde

Alucinação, regresse
Sacie meu desejo
Que o vendaval vem forte
Meu coração treme, arquejo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

decoração

cá estou, emprateleirado...
empoleirado, esperando a ração
aguardando algum carinho
ao menos um aperto de mão

aceitei o desprezo, fui rendido
ilusões me deixam sem ação
vasculho onde sei que não encontro
de sangue e raiva é feito o coração.

...

lento é o vento e rápida é a lembrança
vida real não possui bonança
fotografia é espelho
o peito cheio de desprezo e gelo

borrifo ferormônios numa verdadeira dança
meus gestos não exigem nenhuma cobrança
seus gemidos deixam eriçados cada pelo
te odeio cada vez que pego em teu cabelo.

...

volto para a estante
saí para um passeio de verão
fui alugado para ser acompanhante
ou vendido em algum leilão


após o uso, discurso reconfortante
novamente sou decoração
crio expectativas como uma debutante
de amor e ódio é feita a união.

domingo, 28 de junho de 2015

sobre a catástrofe

alguns chamam de hecatombe
já ouvi falar em derrocada
terremotos, tsunamis, tudo treme
labareda que cai do céu, terra apavorada

outros perguntam onde se esconde
talvez seja uma fera mitológica
dentro da sua própria pele
criatura agourenta, pernóstica.

...

o temível lamaçal humano
terra batida junto de sangue e ossos
gente sofrida de fumo, endoço
tragam suas vidas esvaziando os bolsos

e a lama vira sonho
terra que nutre os nossos
adubo do que amanhã será vivo
pessoas ou destroços.

...

os casebres inundados
apartamentos que viraram cabanas
catástrofe transforma em chamas
inflama até os oceanos

envenena a água dos poços
verdadeiro desastre nas minas
pedras que outrora foram lágrimas
é sentimento no fundo dos olhos.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

maré

a maré baixa
vem com azar no jogo
e sorte no azar

a maré baixa
acaba com as ondas
e com as melhores amizades

...

só resta espuma
e água salgada.

as cidades, ilhas
foram arrasadas.

passou a enorme onda.

...

maré baixou,
mar secou.
amou.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

pessoas

eu rio
tu praia
ele lagoa

toda essa gente
que foge do calor
cada ser, cada ente
que vive na dor
mundo doente.

...

mundo cansado.
mundo cão.
mundo caótico.

êta mundão!

que não se acaba nunca
que vive de palavra e amargura
de picuinha e frescura.
vou parar de mundar
furei o casco, deixa inundar
velas rasgadas por canhões
estão agora apontados
para os nossos corações.

...

deixa explodir.
só me resta rir.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

má-fé

essa tua idolatria abusada
estátuas ocas, madeira podre
natureza falsificada
vende planta como se fosse carne

fornecedor do teu próprio pecado
fornicando junto de santos e culpados
pregado na cruz de concreto
tomou uns jabs e caiu com um direto

...

meia hora de reza
não foi suficiente para aniquilá-lo
jurou que ia açoitá-lo
com sua própria destreza

a putridão impregnava sua alma
como o cheiro de chuva que fica na calçada
flores fechadas como sua mente,
dizem que seu cérebro é dormente...

...

o tão esperado dia chegou
glória, o messias voltou!
perplexo com o que viu ao redor
pediu a deus para não sentir aquele fedor

angustiado com o que encontrou
ouvindo um fiel gritar: louco!
não adiantava falar, ficou rouco
essa tua má-fé o desencorajou.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Mulher

Ela diz que não precisa,
move suas peças sozinha
anda onde quiser: na curva, na linha
sabe o que não quer, decidida; indecisa.

Rasga o que quer, veste a alma
multicolor, carne e fibra
capaz de tudo, escultora da vida
quantas vezes me perdi em teu colo
outras me achei em tuas saídas...

Com suas pernas, melhor, monumentos
já viajou pelo mundo, mas se diz perdida
chora pelos cantos, teatros, rodovias
ri nas estradas, gargalha na areia...

Perdoo cada um de seus delitos...
mas quem sou eu para perdoar?
Vive tua história, menina
que eu suspiro por ti, de longe, admirando
ah, mulher, como és linda!

quarta-feira, 25 de março de 2015

naturalmente

e de repente, o passado bate na porta
você não sabe se ri ou se chora
os problemas ou soluções pedem volta
sua vida tem que decolar, já passou da hora

não adianta retroceder, desista
voltar atrás? saia fora
piada sem graça, com a face torta
corta pela raiz o sentimento e joga fora

...

nos meus pés caiu uma granada
explodiram lembranças 
e o destino vem e te dá uma facada
sem chance de defesa, caio sem esperanças

por cima de mim passa uma manada
são muitos fracassos, poucas mudanças
e os minutos náufragos, construindo uma jangada
esperando e arquitetando suas vinganças

...

continuo rezando por esse deus que nunca me escuta
e agradeço porque assim continuo na luta
minha vida agora busca outro caminho
a nuca voltará a arrepiar com aquele friozinho

desconsolado, seguirei com a sina 
vigiarei a inspiração de esquina em esquina
outro dia veio ela com passos de pluma pelo convés
foi embora sem avisar, me deixou com esse revés.




segunda-feira, 16 de março de 2015

sobre dois dias tristes

hoje, minhas palavras estão presas em algum lugar
gritando reivindicações, melhorias

na avenida, elas se travestiram
espernearam atrocidades
cuspiram na cara dos que já foram torturados.

hoje, minhas palavras choraram
clamaram piedade, exigiram dignidade

nas ruas, elas correram
mais rápidas que os carros, motos, ônibus
atiraram na cara daqueles que só queriam justiça.

...

mata essa palavra!
essa palavra escolheu esse caminho porque quis!
tem palavra que mesmo pobre, é digna e honesta!
palavra boa é palavra morta!

terça-feira, 3 de março de 2015

não tão sagaz #2

do branco que fica preto e depois azul:
um rosto
bochechas
maçãs amadurecidas
pele jovem ou envelhecida.

do azul que escurece e volta a ser preto:
algum tempo
pequeníssimos espaços
migalhas do café da manhã
idade desconhecida.

do preto que laminado e mais uma vez é branco:
uma navalha
imperfeições expostas
manchas de batom
cútis rejuvenescida.

seria tolice pensar
que uns poucos cortes
fossem mudar sua vida.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

não tão sagaz

outra vez sou normal
esparso, no meio do nada
parte de mim, me deixa
a outra parte, pode ficar aqui

estou farto, inflado
(continuo com oxigênio...)
sinto os alvéolos trabalhando
exauridos, cheios dessa fumaça cinza

ainda sou meio-humano
embora robotizado
enxergo, cores, aromas, sabores
me resta algum cabelo
mesmo que muito poucos

meus joelhos doem, como engrenagens enferrujadas
fico velho, apodreço
começo a pensar na herança que deixarei
corto algumas arestas
calculo outros valores
vejo se o que sobra vale a pena
retiro as últimas partículas do ralo
desinfeto e jogo óleo no restante

dou um breve adeus
àquela que me acompanhou por tanto tempo
aparado e limpo, partirei...
volto logo.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Ode ao odre

Santificado seja o vosso odre
sempre cheio e logo após vazio
tal como a mente brilhante
depois lotada de um vácuo sombrio.

Oh, entes de todo o cosmo
enchei nossos barris
purifica as entranhas
para que nossa bebida
não nos envenene.

Que o vinho nunca falte
pedimos à Baco, incessantemente
litros e litros de puro rum
canecas, taças e cornos
erguidos ao céu azul.

Bebidas quentes e frias
tal como nossas sinas
ora morno, ora congelante
continuamos nossa rotina
agradeço ao odre, agradeço a vida.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

bomba relógio

pressão aumenta
corpo respira em demasia
temperatura esquenta
rotação do sangue mais parece rodovia
nunca para, bombeando
tic-tac, tic-tac

não explode!
os movimentos atingem o ápice
(continuo com oxigênio?)
garganta fecha, contrai-se
mas a fala prossegue
tic-tac, tic-tac

nenhum relógio à vista
situação tensa, todos os tiques
sinto que cheguei ao cume
porque tão custoso?
tendo pulado tantas vezes
ainda está vivo
nunca explode
barulho infernal não se esvai
tic-tac, tic-tac!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Conto de farda

Há muito deixei de acreditar em contos de fada.

...

Assassinato: matar alguém.
Milagre: salvar alguém.
Preto, pobre, sorte
Santo, branco, nobre
Corre, bala, morre
Desfila, louva, sobe
E o Negro que chora, vagueia e dissolve
no branco leitoso, escroto e esnobe.

Sentido! (continência)
Sua mente está suja
de sangue, de chumbo
Não aponta essa arma
Raspa essa moita
Limpa essa roupa
Bala na camiseta
agulha nos olhos
me cega que eu não quero ver
outro menino meu, sofrendo, morrer.

...

Há muito comecei a acreditar em contos de farda.