sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Ode ao odre

Santificado seja o vosso odre
sempre cheio e logo após vazio
tal como a mente brilhante
depois lotada de um vácuo sombrio.

Oh, entes de todo o cosmo
enchei nossos barris
purifica as entranhas
para que nossa bebida
não nos envenene.

Que o vinho nunca falte
pedimos à Baco, incessantemente
litros e litros de puro rum
canecas, taças e cornos
erguidos ao céu azul.

Bebidas quentes e frias
tal como nossas sinas
ora morno, ora congelante
continuamos nossa rotina
agradeço ao odre, agradeço a vida.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

bomba relógio

pressão aumenta
corpo respira em demasia
temperatura esquenta
rotação do sangue mais parece rodovia
nunca para, bombeando
tic-tac, tic-tac

não explode!
os movimentos atingem o ápice
(continuo com oxigênio?)
garganta fecha, contrai-se
mas a fala prossegue
tic-tac, tic-tac

nenhum relógio à vista
situação tensa, todos os tiques
sinto que cheguei ao cume
porque tão custoso?
tendo pulado tantas vezes
ainda está vivo
nunca explode
barulho infernal não se esvai
tic-tac, tic-tac!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Conto de farda

Há muito deixei de acreditar em contos de fada.

...

Assassinato: matar alguém.
Milagre: salvar alguém.
Preto, pobre, sorte
Santo, branco, nobre
Corre, bala, morre
Desfila, louva, sobe
E o Negro que chora, vagueia e dissolve
no branco leitoso, escroto e esnobe.

Sentido! (continência)
Sua mente está suja
de sangue, de chumbo
Não aponta essa arma
Raspa essa moita
Limpa essa roupa
Bala na camiseta
agulha nos olhos
me cega que eu não quero ver
outro menino meu, sofrendo, morrer.

...

Há muito comecei a acreditar em contos de farda.